terça-feira, 10 de abril de 2018

histórias bordadas


histórias bordadas
pamela raiol

ano passado lembrei do título de um dos primeiros livros que li, na verdade, é o livro que o hábito de ler naquela época me faz lembrar. ele era de uma prima que morou com a gente aqui em casa. Quem roubou minha infância? um drama familiar que uma menininha provavelmente sofreria lendo, falava de uma filha odiada pela mãe. mas o que eu mais lembro é do quanto ele parecia GRANDE. enorme! parecia que não conseguiria nunca terminar aquela leitura. mas lia mesmo assim. lembro muito das aulas de piano do livro! minha prima foi morar na casa de outra tia, e esse livro foi esquecido nas ruas de memórias. talvez eu nunca tenha terminado de ler naqueles anos, mas lembro tanto...
Reprodução

graças à Estante Virtual, adquiri um exemplar dessa história de  Maria da Glória Cardia de Castro, publicada em 1985. reli e fiquei surpresa com o tamanho do livro: tão pequeno! e me assustava tanto o tamanho durante a infância! é... agora encarando calhamaços, livros magrinhos em páginas são bem menores. relembrar a história da doce Luciana foi bastante especial, como um mergulho em tempos de lembranças doces da época na qual eu trocava letras.
levei o livro recém-relembrado para uma escola onde trabalhei com turmas de crianças de 9 e 10 anos. as meninas, principalmente, ficaram muito empolgadas e curiosas pela história de Luciana; eu vibrava por dentro por estar lendo uma história para crianças. e, ainda melhor, uma história de quando eu era criança!
Luciana e seu sonho de tocar piano sempre estarão em minhas lembranças de pequena leitora. bem como Bisa Bia, bisa Bel, de Ana Maria Machado, que ganhei em algum ano do ensino fundamental. lembro de como era gostoso folhear esses livros paradidáticos... e os livros de Português recheados de trechos de histórias embalando as questões chatas de gramática.
não me deram muitos livros na infância, infelizmente. fora a Bíblia Ilustrada e aquelas coleções com as parábolas e milagres de Jesus – na tentativa frustrada de criar uma criança cristã – e lembro de gostar à beça de histórias como “O Filho Pródigo” e “Uma Festa de Casamento”, na qual Jesus transformava água em vinho.
aos 10 anos, numa febre pelos filmes do Harry Potter, meu pai comprou o lançamento da saga, mesmo sem eu ter lido os anteriores. era Harry Potter e a ordem da Fênix, o ano era 2004. devo ter demorado um ano para terminar aquele livro de 700 páginas. lembro bem de que lia o nome do Dumbledore de forma aportuguesada: dúm-blé-dó-re, hoje acho graça.
na pré-adolescência li muitas fanfics, aquelas histórias feitas por fãs na qual nós participávamos como personagens. até escrevi uma que ficou pelo meio do caminho, nunca acabei, eu ainda trocava letras, tinha 14 anos. também li MUITOS livros da Meg Cabot, minha série favorita dela era A mediadora, aquela que tem a Samantha e Jesse, um fantasma que vive uma história de amor com ela. esses livros eram, em geral, histórias de amor. eu era doutora em amor romântico, com mestrado em Sandy e Junior e especialização nas bandas emo da época. então era disso que eu gostava, ainda gosto, mas com um pouquinho mais de crítica! só um pouquinho.
passei muito tempo lendo bem pouco, talvez 1 ou 2 livros por ano, não sei mensurar. e nem sei os motivos. mas em fevereiro do ano passado, durantes as folgas que o carnaval nos traz, me perdi em páginas. li bastante, assisti a filmes, conversei, partilhei. ainda se repete, então lembro até agora: a sensação quentinha que é notar como as artes dialogam com a gente mesmo, costuram-se pelo lado de dentro num bordado único e só nosso. cada um tem o seu.
nossas vivências imprimem cor às linhas. as minhas têm tons de azul e cores pastéis. linhas de bordar e linhas de ler. eu conversei com a Kambili naqueles dias, foi quando conheci a Chimamanda. ela me emocionou por muitas vezes, eu queria sempre ouvir o narrar daquela mulher tão forte. de lá pra cá, li todos os seus livros, ela me marca sempre. nas releituras, leio sempre pela primeira vez, de novo.
o ano não recordo, mas foi mais ou menos em 2012 que li um dos livros que mais amo no mundo: Extremamente alto e incrivelmente perto, do Jonathan Safran Foer. quando me pedem para falar de UM livro especial, sempre me vem na cabeça essa prosa-poética de Safran Foer. o livro traz a história de Oskar, um garotinho que perdeu o pai e vive aventuras após esse trauma, correndo pelos distritos nova-iorquinos, Oskar nos emociona. mas, para mim, o melhor é a história dos avós do garoto, que viveram bombardeios alemães na segunda guerra, que viveram uma vida que só consigo enxergar naquele livro. amo ler aquela história e amo ter tido o privilégio de ter entrado em contato com ela, de forma que ela está presente no meu bordado único: linhas e cores.
na solidão do quarto, ter uma infinidade de possíveis amigos (e inimizades) nas páginas amareladas ou brancas de um livro é de trazer felicidade. partilhar impressões com outros leitores têm sido um grande presente nos últimos meses – através do Leia Mulheres, projeto que consiste em ler uma obra escrita por uma mulher mensalmente, com intuito de aumentar as leituras de mulheres em um mundo tão patriarcal, inclusive na literatura. nunca estamos sozinhas. e é como tomar um café quentinho com empada: uma delícia.

Fotografia: Pamela Raiol

ler é aprender como vamos reagir nas próximas vivências que teremos. é conhecer todos os continentes, cidades, costumes. Descobrir meios de viver melhor os nossos dias, pois como todo bom livro, também as nossas páginas terão um fim. daí a importância de grifar o mais impressionante, colocar post it, compartilhar com a mãe, com o irmão, os amigos, o namorado, o cachorro.
escolher belas cores para as linhas do bordado que somos nós, bordar nossas histórias, costurar nossos livros, livrar-nos do mal. amém.

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04/04/2018, 15:55. retoques em 10/04/2018, 21:34.                                    


quarta-feira, 4 de abril de 2018

maria laura

andando pelas redondezas da minha casa, 17:40, o sol ainda baixando, pude ver o quanto as luzes desse horário são bonitas e projetam muiraquitãs nas paredes e as nuvens fazem traços no céu. hoje havia tons de rosa e uma lua para abrilhantar um pouco mais. 
de vez em quando, percebo que não vemos mais o céu, andamos com pressa e seguimos pegando ônibus e entrando e saindo de lugares fechados. assistimos aulas, vamos à academia, trabalhamos. e o céu todo dia é majestoso. o vento das quase 18h tocou minha pele, meus cabelos arrepiados se mexiam. comprei pão, voltei, observei. conversei com a vizinha da frente enquanto a bebê de dois meses dela sorria pra mim.
agradeço.
há tanto embaraço sim, o tempo todo, mas também há tanto raio solar.
às vezes precisa de tão pouco.

10/11/2016

eu costumava manter diários

Eu costumava manter diários. E a verdade é que eu raramente os lia. Havia escritos sobre fones de ouvido que eu gostaria de reler. Mas o resto, não.
 Acreditava que guardar memórias escritas, das quais eu nem mesmo recordava, era algo valoroso.

Hoje penso que o que havia de aprender ali está internalizado. Em algum compartimento do museu interno que nem tenho acesso, só existe.

Além disso, têm as coisas que não aprendo. A gente não consegue aprender tudo, certo?

Ainda quero aprender a costurar.

Costumava escrever mais, mas não necessariamente melhor.

É como resumir um crescimento em sacos de lixo.

É como desapegar de tinta de caneta gasta.

É como se soubesse que posso escrever mais ainda, mais e mais e mais e mais.



29/12/2014

andar, remar, chorar


uma vez tirei uma foto desses verbos em um livro que contava a história das línguas. nunca terminei a leitura, mas gosto muito dessa foto, meio embaçada, contendo os desenhos para essas palavras: andar, remar, chorar.
percebo que são as coisas que tenho feito. andar, quando consigo me movimentar em meio ao marasmo; remar, quando as coisas aumentam as dificuldades, estou num barco pequeno, remando contra uma maré furiosa; chorar, quando a água entra no barco, me molha de uma forma que eu não gostaria, mas aceito. chorar acalma o meu interior, de certa forma, mas não posso dizer que alivia tudo. nada faz isso.
hoje foi um dia punk e já vivi mais dias punk do que gostaria de admitir. mas tudo certo, tudo andando, remando e chorando. de qualquer forma, sempre volto a andar.

27/09/2017

quando chega o círio já acabou o ano


todo ano a gente fala que quando chega o círio já acabou o ano em belém do pará, e esse ano caminha rápido. o tempo parece passar cada vez mais depressa. e acho que às vezes perco tempo deixando de viver melhor. tão melhor quanto for possível, por coisas da minha própria cabeça. mas a gente vai andando. tropeçando. levantando.
nos dias cinco, um ciclo se fecha mais um vez em relação àquela noite na qual tu perguntaste se queria ser tua namorada. lembras? eu demorei pra responder, tive um ataque de riso — de nervoso, claro.
lembras? tu me perguntaste se eu achava que tu só querias “curtir”. faz um tempinho, mas nem parece. foi depressa. estamos indo depressa. nossos compromissos chegam aos seus prazos, às vezes antes do momento que gostaríamos. vi tu conquistares uns móveis novos esses dias. acho que a vida é esse trocar de estante, trocar de mesa, dormir em horários estranhos, produzir lágrimas, sentir as lágrimas, enxugar as lágrimas. sorrir.
a vida e suas várias fases. a vontade que sinto é que na minha vida, em suas várias fases, eu tenha essa companhia gostosa como é a tua. feliz dia 5.
05/10/2017

lembranças escolares

tenho lembranças dos 9 anos e início de aulas da 4ª série no Eunice Weaver. os meus materiais organizados no início do ano… numa pasta plástica. a chuva fraca de manhã cedo e nós, crianças, andando pelas passarelas cobertas da escola. a última vez que fui até lá, recentemente, foi para entregar meu currículo de graduanda em letras. é estranho lembrar da 4ª série. acho que era 2003, a professora chama Édna e eu não gostava de ser criança, acho que hoje essas lembranças são tão boas. acho que nós, adultos, sonhamos em reviver um dia daqueles… nos quais eu fugia da educação física e gostava de mingau de tapioca da merenda escolar. às vezes dá saudade.
3–09–15